Landscape with Butterflies, Salvador Dali
I.
não espero que o poema comova os caminhantes
......................................................[soturnos.
que o poema seja sempre aquele que é terceiro
...................................[apenas indício,
uma lembrança que não traga saudades,
que esteja presente sempre,
mas não visto ou sentido como poema.
-um eterno rio de margens acessíveis
.........................um estado d'alma -
que os versos encaneçam com o poeta,
violento em suas páginas
como as rugas e as mãos trêmulas
......................................de quem o escreve,
cumprindo o romantismo de todos os destinos.
o tempo e a memória bastarão,
..............................[não o será esquecimento
(um acessível rio de margens largas).
aceito-o como aceito o universo,
.....................................[os sonhos,
como aceito as araras pela manhã,
como a luta do mel antes de estar no favo.
que tenha a suavidade do ouro visto nos cascalhos
ou, o brilho da prata quando o sol se faz mais vivo.
que seja o golpe que me acorda e me adormeça,
enquanto me sobra o dia.
II.
declino o verbo de tua boca,
conjugo os substantivos.
que não modifique a essência das coisas
(elas hão de ter essência).
esta noite sonhei que estavas a uma
..............................................[canção de mim
e possuías, nessa canção dourada,
o fascínio da terra das manhãs...
mas eu estava a entardecer
e me perdia nos versos azuís de Dario,
me volatizava na canção gris de Verlaine.
trazias algo violento no olhar
e uma flor que seguia em tuas mãos.
acordei e estava repousada no meu
caderno de versos, tu, a canção e a flor.
III.
não te dou meus rastros, tampouco meu endereço,
apenas os momentos que quiseste,
o alimento de teu desejo,
....................[de tua fome ,
....................[de tua sede...
tenho agonia em esperar cartas que não chegam,
em deixar pegadas para ser seguido
e, me descobrir só, no centro do deserto.
-no deserto tudo é centro-
curvo-me neste lento entardecer de verão.
tenho a impaciência de quem espera
mas, em mim, nenhuma queixa.
IV.
na mesa, reunidos, todos os utópicos,
a minha cadeira na cabeceira
possui o peso e a medida que não suporto.
tudo é mistério e não mistério
então, crio meus artifícios
-o pensamento todo é uma ilusão-.
a tarde choveu.
o que me faz diferente esta tarde?
vivi todas as tardes destas poucas décadas
enganando-me com a falsa esperança
.........................................[de ter ou ser.
eu não tive. não fui.
sinto-me tremendamente ridículo em querer,
um dia, ter sido ou tido alguma coisa.
não sou nada, além de mim, daufen bach.
sou Adão -não incluam-me no contexto bíblico-
sou adão, etimologicamente terra vermelha
e hei de ser sempre terra vermelha,
......................................[sopro, espírito...
numa tarde antiga brincava com borboletas
enquanto mãe batia roupa na pedra.
este sou eu. o menino que brincava
com borboletas num riacho, em meio a
......................[duas encostas. tão longe de tudo.
não existiam os livros, as letras e os literatos,
nenhuma vã preocupação com as catástrofes,
..........................................com a política,
........................................com os amores.
hoje percebo que nada em mim
é diferente daquele menino,
a não ser as agressões a que me propus.
uma inquietude.
não sei se vivo ou sonho que vivo.
um homem simples me disse: "é sempre preciso
fazer alguma coisa para manter a roda da vida ,
se fizer, viverá e, se não fizer, viverá do mesmo modo,
mas é um tédio não fazer"
...é preciso consumir-se nesse eterno sonho.
creio que vivemos para nos consumir,
nos apegamos a realidade e a falsa necessidade
para que os vincos do tempo sejam leves...
para não nos perdermos nesse eterno sonho.
as borboletas daquelas pedras eram tão amarelas
e a noites que invadiam as frestas e davam vida
................[as luzes de querosene, eram naturais,
.............................[eram noites com seus ruídos.
talvez tu não entenda, não o culpo,
a vida é insondável e secreta, urge todos os dias,
eu sigo, crendo ser tudo um sonho, utopias.
V.
uma luz amarela, desapiedada, que ilumina
.................[alguns livros, são minha vigília.
tento alguma reflexão mas, o que é a reflexão
senão espelho. inútil e labirinto.
mas preciso consumir-me e sentir e me ver
na presença de coisas incompreensíveis,
na somatória de números transfinitos,
senão serei como aquele cadeira ali,
.......................[entulhada de jornais antigos.
as paredes oprimem,
sinto a angústia em ver tudo passar.
uma angústia inútil pois, também, passo.
não custa nada tentar ser melhor,
.....................[tentar esquecer, tentar entender.
prevejo, mas prever é um sonho,
é uma ação fantástica. talvez ocorra,
........................................[ocorrer é despertar.
tento despertar mas há tantos enigmas.
li certa vez numa frase de um autor, que
não me recordo, ele dizia que:
"não há outro enigma senão o tempo, essa infinita
urdidura do ontem, do hoje, do futuro,
.....................................[do sempre e do nunca".
viver sem compreender é uma banalidade,
sinto-me entre os enigmas, entre os espelhos...
...........................................[em algum lugar.
VI.
não disfarço o meu pecado,
sei, falta-me pureza no coração.
não tenho o orgulho de ser, não sou nada,
apenas o menino das encostas com borboletas
...................................................[no riacho.
não tenho o orgulho de ter,
o ter é perder a essência,
se é que há alguma essência.
(cada um é seu universo, seu tempo
...........................................[e sua realidade.
tudo que há, além, é um sonho, uma ilusão
que nos faz suportar o próprio peso e nos abstrai
das conclusões insípidas de que, em última hipótese,
não fazemos falta. vivemos da urgência de
....................................[nos sentirmos necessários)
alguém me disse: "Eu Sou!"
não descobri.
o que há, na concretude, para ser?
poderia ser um sonho,
.....................uma urgência,
.....................um encanto,
mas ninguém é nada, não sou nada...
apenas o universo que construo para me perder.
não disfarço os meus pecados.
tenho a timidez que se confunde
..................[com o meu orgulho,
o meu universo que se confunde
............................[com solidão,
a responsabilidade que se confunde
...............................[com vaidade.
de um bote, a margem, vivo a luxúria.
não sei se os desejos são culpáveis
como os atos, se os são, não existem puros.
VII.
tenho a sensação de ter vivido tudo isso,
(incluo-me no arquétipo da tese platônica de que
já vivemos tudo num orbe anterior)
mas não compreendo.
o mistério da atenção sobrevive a carne
..................................[e seus engodos,
mas a atenção distrai-se e nem sempre me lembro.
como um retirante de pele ressequida
e de fazendas queimadas, sigo intuindo
................................[minhas versões e aversões,
destruo a inocência e me embebedo nos sonhos
-esse estratagema-.
nessas atenções e sensações,
lembro-me uma menina que postou-se
.................................[em minha cama,
numa noite um pouco fria, mas de verão,
quando era, eu, um pouco mais que menino.
estava afoita e trêmula, tinha medo, mas queria-me.
a vi como um flor que lutava para emergir
.......................................[de um fosso.
soltei-lhe os cabelos acariciei o rosto...
......................[me compadeci e a livrei de mim,
..................[senti amor e alívio nos seus olhos.
eu era apenas a fantasia daquele olhar trêmulo.
como um cavalo galopando no escuro,
madrugada adentro,
tentei lembrar de todas as primeiras vezes,
não existiam, não existia o primeiro doce na boca,
...........................................o primeiro amargo,
..................................................o primeiro rio
...........................ou o primeiro vermelho que vi.
a menina trêmula e afoita, não sei qual primeira
.............................................[vez ela deu-me,
mas foi a única que desatei os cabelos e deixei
seguir nua, sem o meu toque.
a tese platônica as vezes me confunde,
como ter a sensação de ter vivido e não me lembrar
de todas as primeiras vezes?
inclino me afirmar que a lembrança só é fiel
.......................................[para as coisas únicas,
como as borboletas de meu riacho,
como a noite a beber a querosene da lamparina
e a menina virgem que me despertou para
.......................[a renuncia das entregas vazias.
VIII.
tudo tende a história e ao códice da palavra.
tudo que é vivido e não descrito padece
de uma solidão intrínseca.
morre em si mesmo
ou na indiscrição de um vulgo sem virtude.
IX.
fui peão, mas desejaria ter sido cavaleiro
................................[de lanças longas
e ter vivido em algum período remoto na
...................................[era medieval...
quando acordei ainda divisava estrelas no amanhecer.
entoei uma palavra grave. não fazia frio.
..........................................[acordei tardio.
entenda, sou um catador de tempos,
..............................[de outras eras.
tudo que digo nesta nota é um sonho sem sentido,
.........................................[um decurso de tempo
...................................................[um torvelinho.
não creias. estou dormindo.
agora, por exemplo, busco uma palavra,
um som que faça eu coração abrasar,
que seja um palavra esquecida, mas que possua
......................[algo de sagrado, de maravilhoso.
tenho me deparado, todas as manhãs, com
.............................[um bem-te-vi sonoro.
no decorrer do dia e da noite, esqueço-o,
só o lembro pela sua insistência.
talvez esteja insistindo em dizer-me tudo
........................................[o que quero.
-disseram alguns que os ouvidos são viciados.
só ouvem o que querem-
tenho que desaprender a ouvir, a dizer...
preciso me dilatar como os rios se dilatam no mar
e esquecer a minha pequenez humana,
.................................. [o meus desejos infantis.
ser um cavaleiro que sobrevive a todos os tempos,
.......................[compreender os ciclos do mundo.
preciso de uma armadura de metamorfoses.
X.
algo de singular nos olhos que vejo,
diz-me que o tempo apesar de sucessivo,
é um baú de recordações e reflexos
que a linguagem pôs no passado.
as planícies parecem indistintas,
mas as colinas diferem-se.
estes olhos que vejo andaram muitas léguas e
..........................................[estão cansados,
indiviso suas distinções e indistinções
-parecem fatigados-.
os vejo dono de sua vida e sua morte,
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,[mas não interpretam.
que importa interpretações, novas leituras.
basta reler, é necessário reler, empreender de novo
............................................................[viagem,
prescindindo dos antigos temores e das pedras nas
................................................[trilhas estreitas.
a mesma paisagem nunca é igual nas diferentes
horas do dia, sequer na mesma hora para diferente
..............................................................[olhos.
estes olhos entendem que toda viagem é especial.
encerram algo de infinito,
possuem cores antigas que ainda conseguem ver.
XI.
todas as presunções são temerárias. são elementos
.....................................................[de assombro.
o que veio da terra volta a terra,
o que veio do mar volta ao mar...
uma parábola matemática.
(saturam-me os copiosos vocabulários
e os versos mil intrincados)
alguns botões estão prontos para florir
......................................[esta noite.
na próxima noite não mais existirão.
não serão mais que botões floridos,
mais que essência percebida.
XII.
meu tempo foge como o tempo de um encarcerado.
flui e foge como as águas da nascente do riacho
..............................[que eu via quando criança.
quase anônimo se não fosse a atenção de meus
...............................................[pensamentos
ou a inquietude que o sentir resgata.
não há horas para a meditação
ou para conjecturas do que passou
apenas passa, apenas segue intenso,
........................[inteiro e caudaloso.
dividi o tempo. o percebi.
......................[meu erro.
XIII.
se tu ama, ama com tuas verdades.
não demonstre que teu coração é vil,
tuas palavras desferidas tem o instinto infante
................................................das espadas,
.................................................das pétalas
........................................... e dos espelhos.
ama com tua ilusão, apenas se puderes crer que tua
ilusão é a libertação de tua alma,
que és maior e melhor naquilo que te iludes
e permitas consumir por esse outro eu que há em ti.
............................se não for assim, não te iludas.
teu amor e tuas palavras possuem o secreto acordo
da representação maior de tua existência.
XIV.
teu olhar não tem princípio ou fim,
é apenas teu olhar.
quando eu não puder reivindicar da memória
..........................as cifras que te componho
e, todos os verbetes se tornarem inconclusos
....................................e sem significados,
ainda assim, teu olhar marejará em mim
......................................lágrimas sentidas
e escreverei com as pontas dos dedos versos
............................................sobre a água.
(...)