"dos silêncios que coleciono na noite" - Parte 3

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Imagem: Matthew Albanese

I_
os jardins estão espremidos entre o perfume
                                                 e a existência.
no fundo do tempo uma primavera esquecida
                                                                  &
os dedos animais de éter, músculos e ossos
a se contorcerem .


nas ladeiras encobertas de espumas,
uma doçura horrível, melancólica, reluz uma paisagem
                                                   contínua de saudades
que se interpõe à vida e o silêncio compacto de um retrato
devastado por uma alegria que muda de cor.


tento durar pelo tempo, acender para a imortalidade
                                                  de um momento.
enquanto engulo uma drágea de minha Lyrica pela manhã,
enganando minha lúcida epilepsia


antidepressiva Lyrica, falsas portas de uma paz extinta
do sonho que se volatizou numa chama única
fundindo o ardido de teus olhos nas lágrimas
que sempre descem pelo vazio dos dias e das noites.




II_
um exercício, esse, o de ser silencioso
e encontrar na ironia irreprimível
a doçura do segredo
e nas chuvas, nas últimas chuvas,
onde o azul do céu é mais azul,
sonhar pelos meses e cair das alturas
onde as palavras são trevas inocentes.




III_
digamos que nos jardins das tulipas
ficou na memória, oculto,
                    o entusiasmo do mundo
e uma clareira se fez ao lado da fonte.


digamos a nós mesmos, digamos,
que os nossos pés acostumados a orvalho
                                                    relva
                                                         &
ao caminhar tranquilo da sombra
protegeram-se das pedras e absorveram
essa melancolia perene que não se extingue...


(no sono de olhos abertos, a musa segue
curvando-se sobre os arcos de flores).




IV_
tudo.
divinamente tudo nos período dos instantes acesos.
as casas estão a meia altura, algo artificial sobre
esse chão que se esgota no tempo para renascer de novo.


ruidosos, os tratores comeram algumas raízes
e os cavalos, ao largo, assistiam impassíveis.
ergueram-se colunas, e o mármore conheceu
                              as patas do gafanhotos.


tudo.
uma infindável paisagem divina
uma densa construção dos sentidos.




V_
a imagem diurna ordena aos olhos
que uma réstia de escuridão é o espanto.
                                   espantamo-nos.


os dedos, feridos de faca, tal qual garças
que voam baixo no entardecer, sem o lugar do pouso,
                                                  inventam um voo,
                                                            uma trilha,
deixando nas suas pegadas, rastilhos e invenções
de coisas puras e tristes.


uma eternidade dadivosa, secreta
enigmaticamente, entre as paisagens inclinadas,
arquitetam os versos que precisam ser escritos.


                              deslumbramentos.
                                      suspensões.
                               estrelas da alma.
animais de pó se tocam no firmamento.


rios de rosas e espinhos de águas
carregam a esperança e a força divina
que permite, ao verso, seguir.


daufen bach.


[impudicos]

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impudicos

      ao teu ouvido,
antes de obedecer apenas aos teus pedidos.

o desejo queima mesmo os corações mais castos. é a beleza mais antiga, o
sentido mais primitivo,
     o animal a contorcer-se nas fímbrias do pensamento
no tenso debate entre a liberdade consciente  do sentir, e o poder aprisionado do realizar. esse consumir-se em subjetividades,
                                   esse delicioso pecado,
                                   esse fazer que tornam unos, o profano e o sagrado. que traz para minha pele e para os meus pelos a voracidade de bicho e a
virilidade tacanha do insaciável, banhada nas sensações mais humanas do
sentir, numa luta em te fazer mulher santificada a gemer gozo no bico dos seios arrepiados.

assim te vejo, pura poesia... dama na noite, a estrela guia que toma o céu e ignora os faróis, uma antagonia que me despe do homem perdido em teus lençóis e me faz o animal que te sacia... depois amanhece, com olhos de criança.



[impudico_1]

te arrastas nua pelos lençóis.  a conjunção perfeita da luz com o tecido
prendido entre tuas pernas acende a faísca. move-se.

(tua trama está em acender em meus olhos o desejo que me consome
e o instinto, o animal instinto de estar prendido entre tuas coxas 
a sentir o teu calor e a tua bondade oferecida.
me sacias enquanto faço-me escravo das vontades que segredas).

serpenteias.
insinua-te.
deita sobre meus braços e beija-me o peito. a tua boca tem o calor exato,
a mornidade que queima sem ferir, a umidade que arrepia sem molhar...
a tua boca é vívida lascívia,  aconchego,  ternura... é piedosa.

permito-te que me tomes, mas não estás a tomar-me!

como um servo que, para saciar-se na fonte, prostra-se humildemente,
assim me posto diante de teu corpo, diante dos bicos de teus seios que teimam esse atrito suspenso de pele contra pele.
estás  colada a mim, as pernas sobre as
minhas pernas. os cabelos, macios como rendas bordadas a mão, me amarram, entrelaçam, envolvem-me... mas não há cadeados, nós ou amarras, estou prendido apenas pelo desejo de estar prendido.





[impudico_2]

fecha os olhos, sussurra e vira-se, no íntimo sorri, sabes que é dona...
sinto o teu cheiro e tremo.
como aquele que esculpe detalhes no cristal, vestido de cuidados e de medos, passeio as mãos pelas curvas e saliências...
a sentir a textura, a perceber que os cristais se forjam no fogo, torno-me intenso e busco a medida da força que te serve, que tu suportas.

  permissiva,
a confiar  na mão que desbrava as coxas, abre as pernas devagar.
nesse
ritual sem melindres, alheio a pressa, torna-te inteira cúmplice, torna-te inteira entregue, não mais se distingue o possuidor do possuído... não sabe mais se é minha língua que roça teu pescoço ou, se são teus ombros que procuram meus dentes...

(aquele que é amado e o que se faz amante perdem  a identidade quando
  se tornam unos.)

a luz, essa antiga luz não precisa de toda a intensidade. meu corpo teso inclinado sobre o teu e os teus seios enrijecidos, sabem todos os caminhos e aceitam todos os mistérios. a mão prendida entre tuas coxas, a acariciar o monte, a comprimir tua vulva é sabedora dos destinos. os dedos sentem a umidade, penetram lentamente...uma respiração mais afoita, um gemido contido e a noite inicia-se, limpa de véus e de pudores.


daufen bach. 



"dos silêncios que coleciono na noite" - Parte 2

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(imagem: Kevin Day. Árvore Morta)

XIV
há uma certa magia nas coisas que acontecem ao acaso
o abstrato das emoções se intensifica e se correlata
.....................................................[com a realidade.
as emoções sempre carregam algo de físico,
das vigílias e dos sonhos
que nunca sabemos ser a causa ou a consequência.

sempre o rubor e o sulco das lágrimas
que vivifica e mistura, à face, o doce e o salgado.


XV
quando acordei, na madrugada, o cheiro de jasmim
.................................[invadia as frestas da porta.
nas sensações, algo de prímevo acendeu o desejo,
..........................................................a ternura
.................................................e a esperança...
.......................................algo de antigo e frágil.

desejei levar comigo o jasmineiro para além,
para um país apenas de jasmins,


XVI
"não sei se és a morte. sei que estás em meu peito"
uma agonia branca de dúvidas, esta.
no meu tempo, não no tempo que sonho para o
...........................................................[amanhã,
tampouco o tempo do passado,
no meu tempo de todas as coisas,
uma inquietação.

nos meus poentes vejo os carro de bois descerem a
ladeira e margearem a gruta fincada na rocha.
uma imagem. Nossa Senhora de Lourdes, olha
..............................................[cima da escadaria.
córregos, cachoeira e quietude.
uma paz de sombra e umidade...
os carros de bois, sentenciosos, adentram para
......................................................[a noite.

entorpecido, testemunho que todos os caminhos
estão a um passo. meus pés tremem.

uma rua dura concebe o caminho da alvorada.
preciso aprender a ignorar as conjecturas,
além do agora, tudo é um vasto campo de
..............................[abstração e incertezas.


XVII
contemporâneo. sempre contemporâneo. o amanhã
é outra coisa, uma consequência. o ontem uma causa.
hoje, uma síntese imperfeita. promessas
...................................................&
...........................................milagres.

XVIII
dos favores e dos mistérios concedidos a mim,
nesses caminhos de rios,
nesses deslimites instaurados em corredeiras,
flutuo na intimidade de teu corpo-menina,
com que me acostumei estar sempre em festa.

nos teus dias, outros, quando sorrires e, de
esquecimentos, não mais lembrar,
terei antecipado a amorosa elegia dos
desenganos dissipados no tempo-do-sem amor.

como um anjo obscuro, feito de despedidas,
voltarei de teu olhar,
...........de teu calor
para abraçar o frio e o escuro das madrugadas
..................de julho numa solidão inevitável.

estarás  como os "de repentes",
próxima.
sem mim, sem amor.
..................................liberta.


XIX
venho de longe. alazões furiosos balançavam
as crinas e sumiam na penumbra. ruidosos
..................................[cascos, silenciavam.

apenas o sussuro do orvalho na relva,
a louvar a tarde que caiu, fazem-me
..................................................[reconhecido.
andante,  peregrino... tento entender esse tempo
........................................ ..[que vive em mim.

não espero. sigo devagar.
quero merecer outra manhã.


XX
as aguas turvas, calmas
afastam-se como se apiedades
do abraço inútil da luz que investiu
e sumiu dentro da noite.

louvam as estrelas festeiras,
no espelho das águas,
o abandono de minhas palavras.

os terraços silenciosos esperam o amanhã
.............................................[que vem.


XXI
meço o tempo nas baforadas do cigarro.

à minha porta, meninos sorridentes falam alto,
parece não terem visto o dia... livres como a fumaça.

.................................................invisibilidade.
...................................................imprecisões.

no meu rosto, uma febre de ver acontecer.


XXII
tinha em cada vinco da face um traço maldito,
uma intratável persistência em ser mais do
............................[que aquilo que podia ser.
sua plenitude, pobre, carecia de mais um suícidio...
...................................................[o dos sonhos.


XXIII
a lua, enredou-se rumo ao nascente.
a noite era tão pouca,
tudo era tão pouco,
como a solidão de um cego que persiste diante dos dias.

alcançou as encruzilhadas.


XXIV
tu me traíste poesia. me deste todas
.....................as ilusões dos sonhos,
.....................................as alegrias,
...................................a esperança.
preencheste os meus vazios com emoções
tantas e não disseste do olhar nos olhos...
escondeste o carinho das mãos a percorrer
.................................................[a face.
por quê não me mostraste, antes, que todos
os versos todos não valem um sorriso?

só depois me disseste que tudo que é
cantado, existe para seguir brisa afora.

tu me traíste poesia!


XXV
gosto de todas as coisas que me apetecem a
alma, mas não queria a alma.
recorrente, brinco sempre com as pétalas de
jasmim. vegetam e me encantam.


XXVI
o que pode fazer com que sintamos mais a vida
do que o desejo de não estar vivo? a agonia é tão
...........................................cheia de vida e dói.
neste quarto, todo branco, onde as velas queimam,
passeiam pelos vãos das portas e janelas o ruído
da rua. o ladrar dos cães misturam-se aos
...................................[tique-taques os relógios.

[o tempo se esvai pela garganta dos cães]

Não tenho outra voz senão a minha voz. escuto-a,
grave e monótona.  penso no dia que estarei
..........................................[vazio deste quarto.


XXVII
com os olhos fechados para além o além.
meu rosto relaxa. sinto frio.
o além está dentro de mim.

perdido em mim mesmo.

é necessário a balbúrdia, a correria.
esqueço. é necessário o sono.

não quero estar preso dentro de mim,
há um inferno dentro de mim.
há um mundo imaginário dentro de mim...

tudo é vago, denso e vasto.


XXVIII
disseram-me: "tudo termina com a palavra".
mas a palavra é nada.
assim como as coisas que agora escrevo possuem
o fatídico destino de não serem nada.

desse instante que me consome, nada ficará.
"se eu morresse amanhã", seria apenas uma
lembrança que morreria junto de outras lembranças
e, depois...outras e outras.

[o homem é um uníverso que morre sem que
............................................percebamos.]

é preciso viver fazendo do caminhar importância
maior que o caminho. o caminho é morto. a vida
é morta. é preciso viver dentro da vida como a rosa
.................................[que vive dentro do espinho.


XXIX
entre o néscio e o homem de ação,
apenas uma diferenciação:
um nasceu morto no ontem e, o outro,
espera,
um dia,
nascer no amanhã.


XXX
lá fora a noite está tão antiga. os animais dormem.
......................................................[é o instinto.
não consigo dormir, me falta o instinto, as definições
do homem que poderia ser.

não creio na definição da igreja,
minha racionalidade se perde no meio das ilusões
e a minha sociabilidade aristotélica me confunde.

[se eu fosse um cão saberia os "quês" e os "porquês"
se nao me povoasse os pensamentos abstratos,
........................................seria eu, quase um cão]

esses pensamentos que não me levam a nada,
me fazem vitorioso,
mas essa vitória me põe solitário numa planície
.......................................................[árida...
queria a derrota e estar entre os jardins.


XXXI
sou um egoísta.
vivo como um egoísta.só.
um triste deleite.
não pertenço.

um dia, num futuro, terei calma nas tempestades.
os ventos carregarão as folhas,
as árvores mostrarão suas raízes
e, embriagado, nos meios-fios, sentirei
..................................[o abandono sem medo.

não haverá vielas e composições em meus olhos.

(...)

daufen bach.

eu te amo. tu me perdoa.

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eu te amo. tu me perdoa.
não me perdoes. ama-me e serei tua única música,
o fiandeiro voluntário a tecer os tapetes
.................................[que forram o teu caminho.

há uma incredulidade no perdoar
.............[essa invenção ilusória]
se justificas, inventa a tua servidão,
se julgas descreves o teu destino.
livro-te do perdoar. aceito o meu pecado,
....................................[a minha culpa.

o teu perdão me faz servo, condena-me.
a remissão está em mim. palavra alguma, tua,
............[apagará do espelho a minha sombra.

que pode tuas justificativas e o teu perdão
...................................[minha pecadora?
és igual a mim!
viveste os suaves suspiros. a ti condenaste.
não podes perdoar. antes, perdoa a ti mesmo.

assim diz-me as Escrituras, o Deus de Jó que eu
................................. ...[não entendo e aceito.
o que salva-me é teu amor,
ele me faz luz,
ele me faz igual,
faz-me liberdade...
é teu amor me conforta e esconde minha
.................................[monstruosidade.

eu te amo. tu me perdoa.
...............[inocência tua]
canto como um pagão esse amor por ti,
..............................[mas tu és *Beatriz.
ah! como te queria *Francesca!
eu seria *Paolo...
desafortunados, pecadores, amantes por toda a
.................................[vastidão do tempo e da
........................................................[mística.
me comoveria, com lágrimas nos olhos, com a tua
.......................................[aceitação do destino.
mas tu não entende,
não pode...
engana tua verdade mais íntima e faz de teu sentir,
...........................................................[alegoria.

te definiste para sempre num único momento,
no nosso momento de “delicias, deleites e ternura”,
que queres tu agora com o acaso
(essa ignorância das causalidades)?

não minha pecadora! meu julgo é teu julgo
minha lei é tua lei, essa síntese gestáltica,
................[essa recidiva e piedosa poesia,
................[essa infinita e insensata piedade.

abandono-me a minha fé de criança,
ao meu céu carregado de estrelas,
a luxúria imperdoável de ter-te e,
............[não apenas o teu nome.
(sinto o teu encanto...)

eu te amo. tu me perdoa.
...............[nobre intento]
encontra-te contigo mesma. decifra-te.
descubras a diferença do episódico e do eterno.

eu te amo. não me perdôo.

daufen bach.

*Beatriz: Personagem da Divina Comédia. Encontrada no céu concêntrico de Dante, seu amor puro e impossível.

*Francesca e Paolo: Também personagens da Divina Comédia, mas encontrados no inferno de Dante. Dois apaixonados, adúlteros, assassinados no mesmo instante, porém, Francesca aceita o seu destino com resignação, pois está ao lado de seu amado.





"os silêncios que coleciono na noite'

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Landscape with Butterflies, Salvador Dali
I.
não espero que o poema comova os caminhantes
......................................................[soturnos.
que o poema seja sempre aquele que é terceiro
...................................[apenas indício,
uma lembrança que não traga saudades,
que esteja presente sempre,
mas não visto ou sentido como poema.
-um eterno rio de margens acessíveis
.........................um estado d'alma -

que os versos encaneçam com o poeta,
violento em suas páginas
como as rugas e as mãos trêmulas
......................................de quem o escreve,
cumprindo o romantismo de todos os destinos.

o tempo e a memória bastarão,
..............................[não o será esquecimento
(um acessível rio de margens largas).
aceito-o como aceito o universo,
.....................................[os sonhos,
como aceito as araras pela manhã,
como a luta do mel antes de estar no favo.
que tenha a suavidade do ouro visto nos cascalhos
ou, o brilho da prata quando o sol se faz mais vivo.

que seja o golpe que me acorda e me adormeça,
enquanto me sobra o dia.


II. 
declino o verbo de tua boca,
conjugo os substantivos.
que não modifique a essência das coisas
(elas hão de ter essência).

esta noite sonhei que estavas a uma
..............................................[canção de mim
e possuías, nessa canção dourada,
o fascínio da terra das manhãs...
mas eu estava a entardecer
e me perdia nos versos azuís de Dario,
me volatizava na canção gris de Verlaine.

trazias algo violento no olhar
e uma flor que seguia em tuas mãos.

acordei e estava repousada no meu
caderno de versos, tu, a canção e a flor.


III. 
não te dou meus rastros, tampouco meu endereço,
apenas os momentos que quiseste,
o alimento de teu desejo,
....................[de tua fome ,
....................[de tua sede...

tenho agonia em esperar cartas que não chegam,
em deixar pegadas para ser seguido
e, me descobrir só, no centro do deserto.
-no deserto tudo é centro-

curvo-me neste lento entardecer de verão.
tenho a impaciência de quem espera
mas, em mim, nenhuma queixa.


IV. 
na mesa, reunidos, todos os utópicos,
a minha cadeira na cabeceira
possui o peso e a medida que não suporto.
tudo é mistério e não mistério
então, crio meus artifícios
-o pensamento todo é uma ilusão-.

a tarde choveu.
o que me faz diferente esta tarde?
vivi todas as tardes destas poucas décadas
enganando-me com a falsa esperança
.........................................[de ter ou ser.
eu não tive. não fui.
sinto-me tremendamente ridículo em querer,
um dia, ter sido ou tido alguma coisa.

não sou nada, além de mim, daufen bach.
sou Adão -não incluam-me no contexto bíblico-
sou adão, etimologicamente terra vermelha
e hei de ser sempre terra vermelha,
......................................[sopro, espírito...

numa tarde antiga brincava com borboletas
enquanto mãe batia roupa na pedra.
este sou eu. o menino que brincava
com borboletas num riacho, em meio a
......................[duas encostas. tão longe de tudo.

não existiam os livros, as letras e os literatos,
nenhuma vã preocupação com as catástrofes,
..........................................com a política,
........................................com os amores.
hoje percebo que nada em mim
é diferente daquele menino,
a não ser as agressões a que me propus.

uma inquietude.
não sei se vivo ou sonho que vivo.
um homem simples me disse: "é sempre preciso
fazer alguma coisa para manter a roda da vida ,
se fizer, viverá e, se não fizer, viverá do mesmo modo,
mas é um tédio não fazer"
...é preciso consumir-se nesse eterno sonho.

creio que vivemos para nos consumir,
nos apegamos a realidade e a falsa necessidade
para que os vincos do tempo sejam leves...
para não nos perdermos nesse eterno sonho.

as borboletas daquelas pedras eram tão amarelas
e a noites que invadiam as frestas e davam vida
................[as luzes de querosene, eram naturais,
.............................[eram noites com seus ruídos.

talvez tu não entenda, não o culpo,
a vida é insondável e secreta, urge todos os dias,
eu sigo, crendo ser tudo um sonho, utopias.


V. 
uma luz amarela, desapiedada, que ilumina
.................[alguns livros, são minha vigília.
tento alguma reflexão mas, o que é a reflexão
senão espelho. inútil e labirinto.

mas preciso consumir-me e sentir e me ver
na presença de coisas incompreensíveis,
na somatória de números transfinitos,
senão serei como aquele cadeira ali,
.......................[entulhada de jornais antigos.

as paredes oprimem,
sinto a angústia em ver tudo passar.
uma angústia inútil pois, também, passo.
não custa nada tentar ser melhor,
.....................[tentar esquecer, tentar entender.

prevejo, mas prever é um sonho,
é uma ação fantástica. talvez ocorra,
........................................[ocorrer é despertar.
tento despertar mas há tantos enigmas.

li certa vez numa frase de um autor, que
não me recordo, ele dizia que:
"não há outro enigma senão o tempo, essa infinita
urdidura do ontem, do hoje, do futuro,
.....................................[do sempre e do nunca".

viver sem compreender é uma banalidade,
sinto-me entre os enigmas, entre os espelhos...
...........................................[em algum lugar.


VI. 
não disfarço o meu pecado,
sei, falta-me pureza no coração.

não tenho o orgulho de ser, não sou nada,
apenas o menino das encostas com borboletas
...................................................[no riacho.
não tenho o orgulho de ter,
o ter é perder a essência,
se é que há alguma essência.

(cada um é seu universo, seu tempo
...........................................[e sua realidade.
tudo que há, além, é um sonho, uma ilusão
que nos faz suportar o próprio peso e nos abstrai
das conclusões insípidas de que, em última hipótese,
não fazemos falta. vivemos da urgência de
....................................[nos sentirmos necessários)

alguém me disse: "Eu Sou!"
não descobri.
o que há, na concretude, para ser?
poderia ser um sonho,
.....................uma urgência,
.....................um encanto,
mas ninguém é nada, não sou nada...
apenas o universo que construo para me perder.

não disfarço os meus pecados.
tenho a timidez que se confunde
..................[com o meu orgulho,
o meu universo que se confunde
............................[com solidão,
a responsabilidade que se confunde
...............................[com vaidade.

de um bote, a margem, vivo a luxúria.
não sei se os desejos são culpáveis
como os atos, se os são, não existem puros.


VII. 
tenho a sensação de ter vivido tudo isso,
(incluo-me no arquétipo da tese platônica de que
já vivemos tudo num orbe anterior)
mas não compreendo.

o mistério da atenção sobrevive a carne
..................................[e seus engodos,
mas a atenção distrai-se e nem sempre me lembro.
como um retirante de pele ressequida
e de fazendas queimadas, sigo intuindo
................................[minhas versões e aversões,
destruo a inocência e me embebedo nos sonhos
-esse estratagema-.

nessas atenções e sensações,
lembro-me uma menina que postou-se
.................................[em minha cama,
numa noite um pouco fria, mas de verão,
quando era, eu, um pouco mais que menino.

estava afoita e trêmula, tinha medo, mas queria-me.
a vi como um flor que lutava para emergir
.......................................[de um fosso.
soltei-lhe os cabelos acariciei o rosto...
......................[me compadeci e a livrei de mim,
..................[senti amor e alívio nos seus olhos.
eu era apenas a fantasia daquele olhar trêmulo.

como um cavalo galopando no escuro,
madrugada adentro,
tentei lembrar de todas as primeiras vezes,
não existiam, não existia o primeiro doce na boca,
...........................................o primeiro amargo,
..................................................o primeiro rio
...........................ou o primeiro vermelho que vi.

a menina trêmula e afoita, não sei qual primeira
.............................................[vez ela deu-me,
mas foi a única que desatei os cabelos e deixei
seguir nua, sem o meu toque.

a tese platônica as vezes me confunde,
como ter a sensação de ter vivido e não me lembrar
de todas as primeiras vezes?
inclino me afirmar que a lembrança só é fiel
.......................................[para as coisas únicas,
como as borboletas de meu riacho,
como a noite a beber a querosene da lamparina
e a menina virgem que me despertou para
.......................[a renuncia das entregas vazias.


VIII. 
tudo tende a história e ao códice da palavra.
tudo que é vivido e não descrito padece
de uma solidão intrínseca.

morre em si mesmo
ou na indiscrição de um vulgo sem virtude.


IX. 
fui peão, mas desejaria ter sido cavaleiro
................................[de lanças longas
e ter vivido em algum período remoto na
...................................[era medieval...

quando acordei ainda divisava estrelas no amanhecer.
entoei uma palavra grave. não fazia frio.
..........................................[acordei tardio.

entenda, sou um catador de tempos,
..............................[de outras eras.
tudo que digo nesta nota é um sonho sem sentido,
.........................................[um decurso de tempo
...................................................[um torvelinho.
não creias. estou dormindo.

agora, por exemplo, busco uma palavra,
um som que faça eu coração abrasar,
que seja um palavra esquecida, mas que possua
......................[algo de sagrado, de maravilhoso.

tenho me deparado, todas as manhãs, com
.............................[um bem-te-vi sonoro.
no decorrer do dia e da noite, esqueço-o,
só o lembro pela sua insistência.
talvez esteja insistindo em dizer-me tudo
........................................[o que quero.

-disseram alguns que os ouvidos são viciados.
só ouvem o que querem-

tenho que desaprender a ouvir, a dizer...
preciso me dilatar como os rios se dilatam no mar
e esquecer a minha pequenez humana,
.................................. [o meus desejos infantis.
ser um cavaleiro que sobrevive a todos os tempos,
.......................[compreender os ciclos do mundo.
preciso de uma armadura de metamorfoses.


X.
algo de singular nos olhos que vejo,
diz-me que o tempo apesar de sucessivo,
é um baú de recordações e reflexos
que a linguagem pôs no passado.

as planícies parecem indistintas,
mas as colinas diferem-se.
estes olhos que vejo andaram muitas léguas e
..........................................[estão cansados,
indiviso suas distinções e indistinções
-parecem fatigados-.
os vejo dono de sua vida e sua morte,
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,[mas não interpretam.

que importa interpretações, novas leituras.
basta reler, é necessário reler, empreender de novo
............................................................[viagem,
prescindindo dos antigos temores e das pedras nas
................................................[trilhas estreitas.
a mesma paisagem nunca é igual nas diferentes
horas do dia, sequer na mesma hora para diferente
..............................................................[olhos.

estes olhos entendem que toda viagem é especial.
encerram algo de infinito,
possuem cores antigas que ainda conseguem ver.


XI.
todas as presunções são temerárias. são elementos
.....................................................[de assombro.
o que veio da terra volta a terra,
o que veio do mar volta ao mar...
uma parábola matemática.

 (saturam-me os copiosos vocabulários
e os versos mil intrincados)

alguns botões estão prontos para florir
......................................[esta noite.
na próxima noite não mais existirão.
não serão mais que botões floridos,
mais que essência percebida.


XII. 
meu tempo foge como o tempo de um encarcerado.
flui e foge como as águas da nascente do riacho
..............................[que eu via quando criança.
quase anônimo se não fosse a atenção de meus
...............................................[pensamentos
ou a inquietude que o sentir resgata.

não há horas para a meditação
ou para conjecturas do que passou
apenas passa, apenas segue intenso,
........................[inteiro e caudaloso.

dividi o tempo. o percebi.
......................[meu erro.



XIII. 
se tu ama, ama com tuas verdades.
não demonstre que teu coração é vil,
tuas palavras desferidas tem o instinto infante
................................................das espadas,
.................................................das pétalas
........................................... e dos espelhos.
ama com tua ilusão, apenas se puderes crer que tua
ilusão é a libertação de tua alma,
que és maior e melhor naquilo que te iludes
e permitas consumir por esse outro eu que há em ti.

............................se não for assim, não te iludas.
teu amor e tuas palavras possuem o secreto acordo
da representação maior de tua existência.


XIV. 
teu olhar não tem princípio ou fim,
é apenas teu olhar.

quando eu não puder reivindicar da memória
..........................as cifras que te componho
e, todos os verbetes se tornarem inconclusos  
....................................e sem significados,
ainda assim, teu olhar marejará em mim
......................................lágrimas sentidas
e escreverei com as pontas dos dedos versos
............................................sobre a água.

(...)

daufen bach.